Aniversário de São Paulo, em 2007. O dia 25 de janeiro caiu numa quinta-feira, o que proporcionou dezenas de shows por toda a cidade. Como sempre, fiz uma listinha de prioridades e fui. O último show seria a tão esperada volta dos Mutantes, no Parque da Independência, com abertura de Tom Zé e Nação Zumbi.
Nessa época, costumava comentar cada show na comunidade das bandas no Orkut. Assim foi com Funk como le Gusta, Móveis Coloniais de Acaju… e eis que recebo um scrap. Algo assim: “Ei, ta me seguindo?”. Era Anny, que já conhecia da comunidade da revista Bizz, mas nunca havia trocado uma palavra. Lia as coisas que ela escrevia e creio que ela fazia o mesmo comigo. Ela me mandou o scrap porque percebeu que, em dois dias seguidos, havíamos visto os mesmo shows. E com a diversidade que existia, era uma baita coincidência. Começamos a nos falar no MSN e vimos que também pretendíamos ver os Mutantes. Mas não marcamos nada, talvez por timidez. Ficou aquela coisa de “se der, a gente se vê”.
Fomos ao show. Mas é claro que, entre 100 mil pessoas, sem combinar nada, não íamos nos ver. Até porque um não conhecia o outro pessoalmente. Deixamos rolar.
Depois disso, continuamos a nos falar pelo MSN, bem de vez em quando. Sem segundas intenções (juro!), marquei um encontro. Mais para nos conhecermos mesmo… pelo MSN ela sempre foi muito simpática e divertida, queria ver qual era a dela. Pura curiosidade.
O encontro foi no Puppy’s, um bar na Avenida Paulista, na frente do prédio da Gazeta/Cásper Líbero. Tomamos cerveja, conversamos bastante. Ela me contou que tinha uma doença rara chamada Miastenia Gravis, que depois passei a conhecer como a palma da minha mão. Essa doença causa fraqueza muscular e não tem cura. Mas o quadro dela estava muito estável, bem mesmo. Doença praticamente controlada, tirando uma canseirinha ou outra de vez em quando.
Um pouco depois desse encontro, ela começou a estudar para um concurso público e disse que ia sumir do MSN, para ficar focada nas apostilas. Nessa, ficamos sem nos falar por um bom tempo. E nesse tempo, seguimos a nossa vida. Ela namorou um cara, de quem sou amigo hoje. Eu namorei uma garota… enfim, cada qual com o seu caminho.
Depois que meu namoro foi terminado, coincidentemente a Anny voltou ao MSN. E acho que nesse momento veio o estalo. Conversando mais com ela, percebi que eu não podia deixa-la escapar de novo. Lá no primeiro encontro, já notei que ela era determinada, forte e que sempre corria atrás do que queria. Vivida, já havia morado em Portugal, Rio de Janeiro, Brasília e estava lutando por seu objetivo, que era ficar em São Paulo. Me identifiquei muito com ela, vi que tínhamos muito em comum. Resolvi investir.
Muitos foram os convites para sair, grande foi a insistência. Mas sempre fui pisando em ovos, para não virar um mala, um inconveniente. Não insistia nos “nãos”, apenas deixava para a próxima. E assim foi indo, até que veio o “sim”.
Mas calma. Foi só o “sim” para sair, não é agora que a história começa para valer. Fomos assistir “Grease – Nos Tempos da Brilhantina” no Centro Cultural São Paulo, numa mostra de musicais antigos. Eu, de novo, cheio de dedos e de cuidados para não ultrapassar nenhum limite e pôr tudo a perder. Saímos, foi divertido. E eu não queria que aquele abraço de despedida, no Metrô Paraíso, acabasse nunca mais.
Ela, que não era boba, notou meu interesse e meu objetivo. Mesmo assim, ainda ouvi muitos “nãos”. E vou resumir logo a história, que já está muito longa.
Foi no dia 6 de julho de 2008 que Anny disse “sim”. Nesse dia, exatamente, começamos nosso namoro. Um namoro bonito, dedicado (dos dois lados), feliz e completo. E resultado de uma conquista… tive de lutar por ela e eu, naquele dia, recebia o tão esperado sinal de que estávamos no caminho certo.
Formamos, então, aquele casal com o qual todos gostavam de sair. Alegre, divertido… as risadas foram muitas, as histórias também. Os passeios, maravilhosos. Além disso, estávamos com perspectivas profissionais muito boas. Nós dois nunca fomos de fazer planos a longo prazo. Mas já pensávamos nesses futuros trabalhos como possibilidades para melhorar nossas vidas. E o que era melhor: nossas vidas, naquele momento, formavam uma coisa só. Dois eram um.
Em 16 de novembro de 2008 veio o susto. Anny acordou com muita falta de ar. Pensamos que fosse algo da Miastenia se manifestando e corri com ela para hospital. E foi nesse dia, um domingo, em que eu ouvi seu último “eu te amo”.
Na verdade, descobrimos dias depois que não foi a Miastenia Gravis. Foi uma intoxicação alimentar, botulismo, proveniente de palmito, que comemos na noite anterior. Ela, eu e mais umas seis pessoas que estavam na festa de um amigo. A mãe dele também foi hospitalizada com os mesmo sintomas e aí é que ligamos os fatos.
Desde então, Anny se encontrava em estado de coma. Ficou por 4 meses em coma profundo, na UTI, sem uma mínima resposta a qualquer estímulo. Depois desse período, inúmeras vitórias se acumularam. O primeiro abrir de olhos, os primeiros movimentos, a recuperação das infecções que viviam aparecendo… tudo se somando para o final feliz, tão esperado. A gente tinha ainda uma vida para seguir, planos para fazer… aqueles 4 meses e 10 dias que passamos efetivamente juntos tinham de ter continuação. Terminaram reticentes…
Mas o caminho que se seguiu não foi esse. Hoje, quarta-feira, 6 de janeiro de 2010 (o tal ano promissor), Anny não resistiu. Ainda não tive cabeça para pegar informações muito exatas, mas foi uma forte infecção pulmonar que acabou fazendo com que tudo se desandasse. Por 1 ano, 1 mês e 20 dias, ela lutou, se agarrou à sua vida e não quis soltar. Nós lutamos juntos, cada um da sua maneira e com o que estava a seu alcance.
Não há o que dizer. Há apenas essa história para ser contada. Eu a vivi intensamente e ela nunca mais vai sair da minha memória e do meu coração.

Povo fala